domingo, 16 de janeiro de 2011

O FEDOR

A curiosidade, este demônio interior, certas vezes nos cobra um valor demasiado grande pela sua satisfação. Certa vez, ao caminhar por estas ruas tão conhecidas, senti-me atraído por um fedor jamais antes sentido. Uma emanação nauseabunda, entorpecente, cadavérica... Algo que torna extremamente difícil sua apreensão em meras palavras. Pois bem, em frente a uma casa bastante modesta percebo que esta mesma casa é a fonte de tamanha fedentina. Por fora muito sóbria: paredes externas cobertas por azulejos criativamente dispersos; um pequeno jardim devidamente cuidado, etc. Enfim, maiores descrições se fazem desnecessárias. Mas é aí que mora o paradoxo. Como poderia esta casa, externamente tão cuidada, ser a fonte de toda esta miséria? Não sei por quanto tempo passei ali parado, pensando nisso, sentindo o mau-cheiro. Algo de hipnótico talvez. Soa engraçado...


Tomado por uma curiosidade proporcionalmente equivalente à pestilência do fedor, vou até o portão da casa, este que impossibilita qualquer visão em direção ao interior dela. Está entreaberto. É a minha chance – pensei naquele momento. Entrei bastante afoito, confesso. Logo no terraço, algo de grotesco parecia se desenrolar tranqüilamente no preguiçoso diluir do tempo. Uma mulher muito gorda, branca – com algo de róseo em pontos específicos –, de costas para mim, deitada nua com seus longos cabelos dourados esparramados, os seios volumosos arqueados, as pernas abertas, o máximo que seu corpo robusto permite, delicia-se em gemidos curtos, apressados.

Não consigo dissociar sua imagem a uma grande porca. Eis uma impressão sincera. Ela está ofegante em meio a um estranho clímax. Chego mais perto, sem tomar cuidado para não ser imediatamente percebido. Eu não podia pensar em outra coisa a não ser contemplar aquela cena grotesca. Arrependimentos ficam para depois quando o interesse é tamanho. Pois bem, no meio daquelas pernas um pequeno corpo parecia se esconder. Movimentava-se rápido. Era uma criança. Um menino pequeno, também loiro e caucasiano. Não era gordo (era estranho o fato de imaginar aquelas pernas se fechando e sufocando o menino). Estavam copulando ali no terraço. Sexo oral naquele momento. Num movimento repentino a cabeça daquela mulher se move descontrolada, o que me assusta a priori. O menino olha para mim. Um olhar de satisfação. Um sorriso dissimulado. Enterra novamente a face naquela genitália que parecia lhe engolir. Soa engraçado...

Prossigo rumo aos fundos da casa no intento de encontrar a origem exata desse cheiro pestilento. O acesso se dá através de um corredor não muito extenso. Algumas portas lacradas com tábuas fixadas com pregos, outras entreabertas. No primeiro quarto vejo dois homens sobre uma cama. Quarto abafado, miseravelmente iluminado. Aparentam ter por volta de cinqüenta... Face macilenta, bochechas profundas, um bigode cultivado. Calvos na parte superior da cabeça, nariz afilado. São gêmeos. Um deles encontra-se amarrado à cama, imóvel. Bastante escoriado, cortes por todo o corpo lhe faziam sangrar lentamente mas de forma contínua. Pude ver os ferimentos nas costas e braços. Seu irmão, por cima, segurava um instrumento que utilizava provavelmente para o espancamento. Um riso. Um golpe. Nenhum outro ruído a não ser um ranger da cama velha. Um grito desperta minha atenção. Um outro quarto. Abandono este quarto enquanto os dois irmãos prosseguem em sua relação incestuosa, afinal essa não é a fonte do fedor pungente que me tanto me surpreendeu.

[...]

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O QUARTO


Domingo, um almoço em família,
Eis o porco assado:
A matriarca por ali é quem fatia.

Risos e descontração
Lembranças recorrentes do passado.

Desatenção.

Barulhos expressivos.

Ruído seco.

Silêncio.


Todos se entreolham assustados. Que barulho foi esse? Negligenciam.

Infantes a brincar,
Portas abertas e correria.

Gritos agudos.

Silêncio.

Todos se entreolham assustados. Que gritaria é essa? Movimentam-se.

À porta de um dos quartos, o mais isolado da grande casa, a meninazinha treme em choque. Os pequenos olhos vidrados ao chão, brilhantes. Morde os lábios com força, chega a sangrar. Aponta, assim que dela se aproximam. Os adultos... Paralisados.

Ao fundo do quarto, o motivo mais indigesto de tristeza: O pequeno menino, ao chão.
Brincadeiras levaram a pesada marreta, que repousava sobre a mesa alta, a lhe esmagar a cabeça, espalhando róseos miolos sobre o velho carpete. Os olhos saltaram de suas órbitas. Defecou.

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ESPREITA


Um dos lugares mais miseráveis que já pude observar durante minhas viagens como funcionário da secretaria de saúde estadual. Entranhada num canto remoto, a pequena aldeia carrega um semblante de extrema desolação. Logo em sua entrada, um poço que se mostrava muito antigo devido à aparência rústica do mecanismo pelo qual o balde vinha à superfície, além de uns tijolos faltosos na beira do poço e do estado putrefato da madeira que formava o tal mecanismo. Mais à frente, alguns instrumentos de roça quebrados e lançados aleatoriamente sobre o chão de terra batida. O sol desgraçadamente joga suas maldições sobre essa terra seca. Uma onda de vento sopra a poeira densa... Olhei para o relógio já pensando em sair dali o mais rápido possível.

Continuei a caminhar e observar a precariedade do lugar. As casas são construções tradicionais feitas de pau-a-pique com telhados de palha seca. Possuem apenas uma porta e uma janela em sua frente. Não há subdivisões em seu interior. Isso é o que pude ver do lado de fora, já que algumas estavam com o interior acessíveis ao olhar. Não tive grande interesse em buscar adentrar numa dessas casas, já que meu trabalho ali consistia apenas em falar com o líder responsável pelo local, devidamente cadastrado por outros agentes de saúde e lhe entregar um relatório feitos também por outrem.

Ninguém à vista. Pelo que havia visto a pouco em meu relógio, a aquela hora os poucos moradores do local deveriam estar na roça lutando contra os infortúnios desse lugar insalubre. Não havia mais nada a fazer a não ser esperar. Fui até o fim do vilarejo, onde havia uma sombra. Ao longe, nada além de mais terra seca é o que podia alcançar com os olhos. Pontos cinzas denunciam a vegetação morta que se mantêm sobre o solo pobre... Não há perspectiva alguma ali, apenas um vazio parece engolir tudo vorazmente. O tempo passa e maltrata ainda mais os seres que moram por mero acaso neste vilarejo.

Agora, à menor lembrança do que acabei por ver naquele lugar, sinto um mal-estar inaudito. Apenas o esforço para trazer de volta aquela imagem torpe e relatar o fato ocorrido e por mim observado, me causa o mais agudo e mortificante asco. Evitaria tal rememoração a todo custo se não fosse o meu encargo profissional coagindo-me a relatá-la. Que eu tivesse morrido ao ver tal miséria!
Pois bem. Já sob a proteção parcial de uma sombra, após tentar, em vão, encontrar alguém que pudesse indicar o paradeiro da pessoa que me fez ir até ali, vi uma cena dantesca. Se algum deus existir, ele só pode ser um deus de Calamidade. Um deus que se coloca a observar suas crias infames a se contorcer em múltiplas Condenações, em severos Tormentos. Uma divindade que se alimenta de Decadência. Uma mentira que se fortalece a partir do Definhar...

Após o estarrecimento inicial, fui cambaleante para mais perto daquilo que acabara de ver. Um fedor me invadiu as narinas naquele momento. Não há com o que comparar aquele odor nauseabundo. A vertigem dali resultante foi violenta. Vomitei sobre a terra seca que sugou rapidamente o que acabara de ser expulso de meu estômago. Uso a manga da camisa que usava para limpar minha barba e chego mais perto daquela infâmia.

Um pequeno corpo negro. Uma criança deitada na terra sob o sol que lhe fritava a fronte macilenta. Naquele momento, após meus sentidos serem agredidos terrivelmente, uma atenção mórbida se desenvolveu. Estranhamente passei a tomar nota de todos os detalhes daquilo que se prostava frente a mim. Minha respulsa, a partir dali, converteu-se numa curiosidade abominável. Qualquer humano são evitaria dirigir novamente o olhar sobre tamanha abominação...
A criança, que aparentava não ter mais do que 5 anos de idade, estava com a barriga para cima, os braços e pernas bem abertos. Não havia movimento algum em seu corpo, a não ser pela fraca respiração que procurava dar continuidade àquela existência derrotada. Tão magra que os ossos pequenos e deformados pela má nutrição saltavam e se faziam perceptíveis sob a camada ressecada de pele. Ressecada e coberta de pústulas inflamadas. Bolhas de pus acumulavam-se e espocavam espontâneamente com o acumular de sânie.
Possuia um crânio desproporcional à mediocridade do resto do corpo. Seus cabelos crespos estavam imundos. Os lábios feridos liberavam algo repulsivo, que era ingerido talvez numa tentativa de saciar a sede... Não havia dentes. A língua estava inchada. Olhos bem abertos, rumo ao céu. Opacos e atentos.

Não sei por quanto tempo observei o estado deplorável do menino. Fui surpreendido com um movimento brusco e um balbuciar grotesco. Ruídos guturais, forçados, alimentados pelo que restava de força no corpo semi-morto. Mais uma vez um terror passa por minha espinha... O menino parece abandonar este mundo de miséria e se entregar aos vermes que lhe infestarão. Um rito de passagem hediondo se processava ali. Eu não deveria ter presenciado esta insanidade!

Após o encerramento destas estranhas atividades, o corpo calou e permaneceu quieto, como antes. Olho ao redor do sepulcro indigno da criança. Ninguém se aproximava. Ninguém mais tomou conhecimento da morte desse menino. As casas permaneciam vazias, o sol continuava a malograr o vilarejo. Um suor gélido escorria de pela minha testa.
Já ao me preparar para ir embora, ouço um ruído, um grito maldito. No céu havia um par de urubus a voar em círculos. Afasto-me, lentamente devido ao meu estado mental, dali. Os carniceiros pousam triunfantes e chegam mais perto do cadáver. A primeira bicada traz consigo um dos olhos do defunto. A outra ave lhe perfura o ventre, que expulsa uma viscosidade morbígera. Os intestinos revelados saltam. Cães infames se aproximam. Todos magros e degenerados. Um deles morde com firmeza o pescoço do menino, que estala. Outro repuxa as vísceras para longe... Eu não poderia mais continuar ali. Fui para o carro, prestes a morrer. Deixo para trás o vilarejo, o que sobrou do menino, os urubus e os cachorros.
O que após isso ocorreu não mais é necessário que seja pronunciado.

(...)

O corpo humano, tão glorificado como criação suprema de uma inteligência exterior se torna mero alimento para seres infames. A humanidade finda e a podridão se ergue, vencedora!

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ESCOPO

"Oh, noite
Em teus ventos gélidos
Percorrem velhos espíritos.
Em ti, óh noite".

Por trás de velhas poesias
Nada mais se esconde além do massacre.
Desmascaro a beleza dos versos cortando-os
Com a fria lâmina das necropsias.

Envolto num espectro nefasto,
Movimentos dirigidos contra o corpo.
Manipulação precisa destes artefatos.
Dissecação: eis aqui o meu escopo.

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AFOGANDO UM FETO

Puérpera se contorce nas dores do processo natural;
As tripas que procuram expulsar o conglomerado orgânico prestes a devorá-la.
Dois amontoados de células e tecidos em luta pela vida:
Eis o duelo a que assisto.

As secreções expulsas pela cavidade que se dilata,
Musculatura cansada.
Gemidos em agonia e o pranto desesperado,
Em seu ventre um demônio a consome.

Extasiado em meio ao muco e ao sangue,
Esperando pelo suspiro derradeiro da mulher.
Minhas mãos percorrem o corpo suado e trêmulo.
Uma navalha velha a aguarda.
O parto natural revela-se impossível,
Este aborto interrompido.
Intervenção cirurgica se faz necessária,
Canhestra manipulação de ferramentas perniciosas.

Um corte com a navalha expõe a camada de gordura sob a pele,
Musculatura banhada em rubro sangue pulsante.
Outras incerções e o útero intumescido se revela em sua coloração.
Um odor que impregna em minhas narinas...
A placenta guarda o infante banhado no líquido amniótico.
Libero-o de sua clausura primeva e ouço seu primeiro grito.
Agarrando-o pelo corpo frágil puxo-o para fora do ventre aberto.

Tão concentrado nos cortes que fiz não pude perceber os gritos da mãe.
Agora convulsionando, meio morta,
Escumando ligeiramente pelos cantos de sua bela boca.
Essa cria mal-composta, disforme criação duma natureza doentia
Em minhas mãos que lhe cobrem totalmente está submetida.
O crânio pequeno enterro de volta nas tripas que a geraram por longos meses.
Estas perninhas que se revoltam, tão pequenas.
Quebram como galhos secos jogados ao chão.

Sugando o muco das entranhas maternais, afogando-se nas tripas que lhe alimentaram.
Ruídos abafados, procuro reunir meu filho ao ventre da mulher que um dia eu escolhi.

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REFLEXÕES INTERMINÁVEIS... SOBRE UM PROCESSO INTERMINÁVEL


A Natureza digere o corpo que repousa, preguiçoso, num canto qualquer,
Inumana "natureza" que se perde nos vapores exalados por cada poro.
Uma imortalidade outrora tão acreditada,
Nada mais que uma esperança num além prometido.

A Podridão, entidade nomeada como invencível
Revela sua face amarelenta, macilenta e fria.
Sorri vendo aquela carniça sob o sol,
Devorada por inúmeras outras formas de vida.

Sinto o sangue correr em minhas entranhas
Enquanto imagino meu corpo em igual situação.
Uma hora qualquer estarei repousando, preguiçoso, num canto qualquer;
Um outro vivente qualquer estará vendo a Podridão,
Esta entidade nomeada como invencível,
Revelando sua face amarelenta, macilenta e fria.

Ele também sentirá o sangue correr, quente, por cada recôndito,
Por entre as entranhas pulsantes, vivas.
Ele também se imaginará tomado por vermes e fedendo.
E se imaginará sendo observado enquanto o observador se coloca no seu lugar de carniça...
E se imaginará fedendo.

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UM CAIXÃO ABERTO


A terra revirada no meio da noite,
Meu anomimato salvarguadado pela escuridão do cemitério modesto.
O cheiro da terra impregnado pelo odor da morte,
Um aroma mefítico vazando do caixão novo, recém-colocado
Para que a corrupção do corpo seja menos insuportável aos demais.
Minha satisfação em violar este luto,
Vilipendiando um corpo morto dentro da sua última clausura.

Um pedregulho para romper o lacre final,
Que separa o corpo dos vivos
A degeneração do cadáver de mulher
Em seus dias mais hediondos.
Os sórdidos contatos entre a degeneração física do defunto,
E minha degeneração mental, sádico envolvimento entre animais.
Morte e vida numa cópula doente,
Troca de fluidos, envolvo-me em secreções pestilentas
Miasmas e livores na carcaça que me serve de receptáculo.

Musculatura degenerada pelos processos naturais,
Rançosa lubrificação da cavidade vaginal,
Movimentos bruscos e uma penetração áspera.
Gazes pós-mortais ocupam os intestinos do ventre inchado,
Sodomia num orifício infestado por parasitas famintos,
A vida se esvai nesse coito deletério.

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DEAD BODIES GIVE ME PLEASURE...


Sumiços inexplicáveis, incompreendidos são os motivos de minha mania;
Crianças somem e o luto enclausura a mente dos genitores infames,
Tal qual o abutre sobrevoa o corpo que agoniza, à espera de seu bocado.
Sou o criador de meu próprio mundo, uma outra lógica...
Neste quarto pequeno, como vês, deposito os corpos frescos que obtenho em minha andanças.
Outrora frescos, pois a maioria agora está em franco processo de auto destruição. Fétido aglomerado de corpos frios, expelindo suas gosmas hediondas
Um suor mefítico escorre...
Uma mesa, centralmente posicionada, onde um pequeno corpo ainda jaz.
Torso limpo, extraídas as entranhas (agora condicionadas n'algum saco preto).
Misturam-se excretas de diversos intestinos com o sangue preto, velho;
O suor das horas de angústia, o choro infantil...
Ganchos já salvaguardam outras carnes expostas da fúria implacável dos ratos.
Sobre o amontoado pairam triunfalmente, decapitadas, com as costelas expostas... a bela anatomia dos pequenos.

Genitálias despreparadas para o processo anti-natural, sangram como se chorassem pelos olhos vítreos.
Um ranço estimula fricções animalescas contra a musculatura jovem, agora podre.
Felação contra a pequena menina gorda. Uso a cabeça desconectada do corpo para depositar lapsos de minha vida. A vejo nos olhos, vazios e distantes. Parece que esboça um sorriso em minha direção. É uma impressão muito viva. Sob a camada de gordura estimulo meu cérebro em busca de satisfação. A pele alva rompida expõe a camada amarelenta, sobre a carne. Processos orgânicos liberam a sânie fétida, que bebo lentamente. Nauseante secreção.

Tentam me condenar através dos olhos medíocres, uma coleção de objetos selecionados mantenho comigo. Lembro de suas vozes e o som de suas risadas... do choro, dos ossos se partindo, das entranhas sendo reviradas, do som do crânio vazio, dos lábios se partindo em mordidas desesperadas, o som que permeia o universo infantil.

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POUCAS PALAVRAS... (DE VOLTA À INSALUBRIDADE)


Inalando as emanações tão familiares,
Aquelas que outrora eram tão presentes.
Dos corpos estranhamente irreconhecíveis e repulsivos,
Os mais queridos entes isolados por sua repugnância...
De volta à insalubridade,
Um retorno aos processos corruptores...

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UM PRETO


Eis que o animal se contorcia violentamente em dores; parecia possesso. O suor lhe banhava a fronte escoriada, misturava-se ao sangue que escorria morno em pequenos fluxos. Grunhidos e blasfêmias eram vomitados ali, em mistura quase ininteligível. Ainda carregava algo do seu dialeto materno, o bicho. Irritante sonoridade. As carolas tentavam cobrir as vistas com suas pequeninas mãos gordas. Tentavam dissimular o prazer frente ao sofrimento alheio. Tentavam ignorar o corpo do animal, exposto vergonhosamente, vulnerável. Proferiam rezas devidamente memorizadas; purificação para suas almas perturbadas. Nada para o bicho.

Esta infame praça, antigo cenário destinado a processos específicos, recebia os curiosos já acostumados ao espetáculo de semelhantes flagelos. Mero incentivo ao carrasco cínico com seu sorriso a estampar frente a agonia de um animal desgraçadamente submetido a uma autoridade.
O calor miserável irritava-me, o ar era desagradável. O fedor que o corpo surrado exalava era pungente. Excretas liberados involuntariamente escorriam por entre as pernas que tremiam e vacilavam. Espectadores atentos a cada expressão do bicho acorrentado à tora fincada verticalmente no chão sujo. O olhar do carrasco frente ao animal.

Era um preto. Até que caiu morto

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O PEQUENO VELHO


A estatura nanica se misturava a outros sinais físicos que me chamaram rapidamente atenção. Pele enrugada, ressecada pelo tempo. Calvície total. Cadavérica magreza, corpo curvado para frente. Os olhos muito proeminentes na caixa craniana de proporção incomum.
Ele caminha em seus mórbidos passos, notadamente forçados, com o auxílio de uma bengala. Posso perceber o esforço que ele realiza para andar. A lentidão é tamanha que se torna massacrante observar sua movimentação. E segue, vestido por uma roupa preta que lhe cobria a maior parte do corpo...

Não alcançou uma distância grande desde o ponto onde comecei a observá-lo, porém. Pôs as mãos secas apoiadas nos joelhos, tentando recuperar o fôlego rapidamente perdido. Cai. Apenas o ruído de sua cabeça contra o chão.

Imediatamente uma mulher jovem, em desespero, passa por mim. Corre em direção ao homem e grita:

"-Meu filho!".

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SEM TÍTULO X

Corpo infante submetido,
Sem poesia nem belas palavras:
Rimas são inúteis frente à bestialidade...

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FRAGMENTO (...)


Abjeto resto de animalidade, humanidade e vida,
Possuído pela voracidade verminal e entregue ao tempo.
Às mãos da sede inexplicável, uma curiosidade mórbida que consome a sanidade,
Deveras malígna propagação de infâmias, corruptora miserável.
Percorrendo o corpo fétido através carícias hediondas,
Toca-lhe a fronte e o busto esverdeado, os seios túmidos a liberar um líquor pestilento, genitália que abriga os mais desprezíveis parasitas... tabernáculo degenerado.
Percorre o torso inchado repleto de gases morbíficos, internamente consumido pela legião faminta a se satisfazer com os restos alimentares devidamente conservados nas entranhas ocultas... em frenesi!
Cortes incisivos na pele, sobre a carne podre, enegrecida, deixam vazar uma massa pestilenta amarelada.
Das pústulas a sânie escorre e serve como aperitivo ao homem paralisado pelo deleite.
Inala o miasma... lacrimejam os olhos irritados no ambiente terrivelmente sufocante que serviu de leito para o cadáver...

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A ÚLTIMA INSPIRAÇÃO


Por muito tempo enveredei por estes caminhos tortuosos, sozinho.
Algo de esquecido nos processos enclausurados pelo luto estabelecido.
Revirei a terra em busca daquilo que sob sua frieza simplesmente passava silenciosamente... Exumei o que é mantido em segredo, expus as carnes podres sem pestanejar, os odores mefíticos trouxe à tona, os fiz tomarem o ar que nos circunda.
As degenerações tanto físicas quanto mentais, tudo aquilo que é ignorado, tudo em sua crueza mais torpe.

Entre palavras enlameei as mãos, assim como as cobri com o sangue ora rubro, ora Enegrecido fora da circulação.
Pelas entranhas o gosto pelo grotesco se misturou ao muco, aos excretas tão animais, impregnando em minhas narinas o cheiro que exala o corpo inerte. Infantes em matadouros, vilipêndios de carcaças ora já em suas tumbas, ora apodrecendo sob a sombra d'uma árvore, ou até "queimando" e sendo devoradas sob o sol escaldante. E todos apreciaram... Minha própria morte, experiências pós-mortais, cárceres privados, toda a sorte de relatos, de sangrias, de cânceres... À matéria, única coisa que importa, o seu fim. Não me arrependo de evocar em palavras a monstruosidade e a animalidade - quem sabe natureza, algo que duvido muito que exista, destes bichos feitos imagem e semelhança de alguma divindade que se auto-intitula: pai.

Caminhei a maior parte do tempo sem rimas, numa obscuridade, nunca as procurei e as que uma hora ou outra se mostraram ficaram a total encargo do acaso. Nunca considerei-me poeta, no máximo, por vezes, um doudo. Sem remorso algum, para o bem da verdade. Rimas não foram os alvos que tive em mente ao retirar de minhas próprias entranhas estas calamidades... Não me importo que outros as busquem, afinal. E para ti que até aqui caminha os olhos sobre estas linhas, minha última inspiração, em ambas as possibilidades, só me resta evocar as palavras d'um poeta: "Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos."

Nem verso, nem prosa. Nada mais me interessa. Muito menos tuas palavras

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O TORSO


Fermentando excretas no organismo ainda pequeno,
O cadáver infantil exala o fedor que lhe é próprio.
Infortúnio anunciado daquela menina amarrada,
Toca o muco que recobre a mesa fria...

Atemorizada, mordisca o lábio inferior.
Passadas se aproximam e ecoam,
O carrasco observa o pequeno corpo nu e sorri...

Observa o chão imundo e os corpos inocentes,
Almas libertas do corpo animal.
Imundícies alimentam os ratos, os vermes e os fungos;
Olhares vazios contemplam o ambiente insalubre.

Carícias insolentes percorrem a pele da menina,
Orifícios invadidos pelos dedos encardidos do homem adulto.
Lágrimas teimam em rolar...
Lentamente...

Mãos fortes envolvem o pescoço frágil.
Facilmente torcido, a pequena agoniza e libera uma escuma repugnante.
Olhos bem abertos encaram o destino fatídico no vazio,
Apenas o início...

Um procedimento organizado de mutilação:
Extremidades separadas do corpo com instrumentos toscos,
É decapitada a cabeça loira:
Elaboração da obra-de-arte, o talismã que gratifica.

Uma incisão abdominal revela o organismo em seu íntimo.
Fluídos escorrem junto ao sangue ainda quente,
Uma evisceração simplória...

Entranhas retiradas,
Membros amputados sem razão.
Nada sobra além de um torso infantil...

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O PREÇO

Ao longe sussurram os ventos gélidos provindos de zonas inomináveis.
Carregando consigo o cheiro dos cadáveres nus, putrefatos, oprimem os sentidos e o espírito...
Evocam memórias, insânias e símbolos impronunciáveis!"
(Autor Desconhecido)


O antigo punhal, fruto de passagens testamentais de longa data, já está preparado para o momento derradeiro, no qual esta arma singela será utilizada sem hesitações ou qualquer outro pormenor.
Em minhas ponderações pessoais posso imaginar os julgamentos aos quais serei submetido nos tempos que virão. Minhas forças serão postas sob dúvida; meu temperamento será considerado débil, subjugado. De qualquer maneira, afirmo com total convicção, o escárnio destes párias não me alcançará jamais. Um doudo proclamou acertadamente, certa vez, que estas escórias tornam-se cada vez mais insignificantes à medida que alcançamos ares mais elevados. Esta máxima carrego comigo neste momento. Os espíritos medíocres desta época, que se colocarão na posição de juízes, nunca entenderão as complexidades que estão ali entranhadas, debaixo dos seus olhos cegos pela ignorância e superstição mais tacanhas. Eu não terei minha memória diminuída pelas aberrações proclamadas nestes tempos obscuros que aguardam meu espírito!

Estremeço, mas não de medo. Trata-se, na verdade, de uma ansiedade que começa a me sufocar perversamente. Olho para o mundo que se encontra além da janela deste quarto, o ponto mais elevado da construção secular de minha nobre família e, para além do alcance de minhas vistas, apenas pressinto a vastidão insondável daquelas áreas encobertas por um denso miasma que paira taciturno, aguardando paciente os viajantes menos cautelosos que serão confundidos pelo aspecto uniforme da vegetação e ali encontrarão sua sepultura.

Posso sentir um frio cortante que envolve este quarto aos poucos. A partir daí, um estado de alerta toma conta de meu espírito, que se coloca cada vez mais inquieto. Talvez seja o preço que eu preciso pagar por ter ousado... Entretanto, eu não me arrependo do empreendimento realizado. O preço pela consumação de um desejo, através de qualquer meio –acentuando-se, penso, aqueles obtidos por meio de caminhos cujo caráter é mais obscuro e inacessível – sempre deve ser previsto logo nas épocas da gênese...

O relógio preso à parede, acima do móvel antiqüíssimo que guardará este relato à posteridade, com seu compasso uniforme, terrivelmente exato, me causa flagelos inauditos. Faz com que eu lembre a todo instante da miséria de minha condição atual, a qual será superada pelo que está por vir. Dissonâncias infernais ecoam pelas paredes, perturbam meus nervos numa seqüência maldita de notas! Desejo ser destruído neste momento de agonia. Devem ser estas dissonâncias oriundas de alguma fonte abissal a qual nem mesmo a mais breve menção deve ser feita...

Entorpecido pelas excitações violentas que se processam, nada temo, não me acovardo em preces. Mais ao centro do quarto, posso perceber claramente, uma névoa que parece materializar uma forma física desconhecida à percepção espacial vulgar. Um pesado miasma se faz presente, semelhante àquela emanação assassina que vi nas distantes zonas florestais, emana um fedor repugnante. Minhas entranhas reagem a esta agressão, fico a ponto de vomitar, lacrimejo pela acidez do ambiente. Algo entre uma besta e um humano! Que imaginação doente poderia elaborar tão infame besta?! Com quais propósitos esta imagem surgiu, vinda de uma dimensão outra, neste mundo?! Qualquer outro espírito menos preparado teria entrado em algum estado vegetativo neste momento!

Ainda que fisicamente agredido e mentalmente esteja um pouco transtornado (atribuo isto a estes martírios terríveis que aniquilam meu organismo), posso perceber com uma lucidez anormal, os elementos animalescos unindo-se de forma grotesca a um corpo feminino mutilado, formando um amálgama hediondo. Tal visão estarrecedora, ainda que seu aspecto assombroso me desperte um asco indescritível, exerce alguma forma de domínio sobre mim. A fealdade demoníaca desta forma impossível de ser descrita com palavras, torna-se algo secundário diante da realização do desejo mais intenso que foi nutrido por mim. Tudo isto, por certo, configura um mistério sem resolução para os espíritos mais vulgares. Isto que estou presenciando agora, com certeza, é o começo de algo para além de qualquer compreensão...

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SERES INFAMES


“Seres infames, profanas criações dos ventos pestilentos que sopram e mutilam. Criaturas bestializadas e horrendas. Cães vindos do inferno, das profundezas abissais surgem a vomitar blasfêmias. Deicidas... seres aniquiladores dos vivos, devoradores dos podres cadáveres. Habitantes daqueles ambientes desolados e mortíferos os quais a vida exige que sejam evitados para sua própria manutenção... Ghouls!" (Escrito Anônimo).


I - A quem interessar possa

A noite, associada aos seus mistérios ancestrais, revela-se sempre uma aterradora inimiga. Mesmo aqueles homens que foram dotados de uma imaginação pouco impressionável frente à cadeia de manifestações inexplicáveis que envolvem a existência humana estão sujeitos a experimentar momentos do mais profundo pavor e angústia, proporcionados pela negrura infindável que a tudo envolve num manto mórbido e doentio.

Talvez estas histórias extraordinárias, sempre relatadas no curso da cultura humana, soem fantasiosas e absurdas para as céticas inteligências... Mas quanto a isso eu nada posso fazer. Não procuro convencer a quem quer que seja acerca da veracidade destes fatos tão excepcionais. Apenas sigo uma ordem imperiosa e de caráter muito particular. Eu mesmo acho que tal infâmia deveria ser mantida em segredo e oculta nas profundezas insondáveis do esquecimento. Guardar tais lembranças e torná-las inacessíveis a mim mesmo é um desejo que nutro com todas as minhas forças desde aquele fatídico dia... Entretanto, para minha desgraça e total ruína, não tenho nenhum poder, nenhum arbítrio sobre os conteúdos que em vultos bruxuleantes se manifestam em meus sonhos e nas imagens diabólicas e desconexas que me atormentam sadicamente todos os dias. Nestes momentos que beiram o meu desgraçado fim, apesar de toda a resistência que em vão tento esboçar, meu corpo é direcionado à escrita desde depoimento amaldiçoado.

O suor frio, o coração que funciona num ritmo doente, minha respiração fraca e as mãos trêmulas refletem a ação destes pensamentos sobre meu organismo. De tal medida, já peço desculpas antecipadas pela insolente caligrafia deste manuscrito hediondo.
A urgência de minha morte fez com que tu sejas o primeiro a saber de tais fatos, ocorridos em uma data que eu não irei precisar com exatidão. Que a má-sorte daqui por diante exposta jamais se coloque a ti...

II - Um dia qualquer: localidades

A caminhada até o túmulo de minha mãe, que realizo todos os anos, em sua memória, mais uma vez havia esgotado todas as minhas forças. Com um terreno por demais acidentado, estas precárias condições impedem que eu possa seguir a viagem de carro. Deixo-o, todas as vezes, em frente à casa de um velho conhecido de meus pais e muito querido por minha mãe, um senhor de idade já avançada cujos movimentos são bastante degenerados devido à sua senilidade. Adiante, poucos metros à frente, há uma entrada, com uma placa velha e já apodrecida fincada ao chão na qual está escrita, com uma péssima caligrafia e em letras vermelhas – a este ponto, já desbotadas –, a indicação do caminho para um cemitério. . Até hoje procuro por qual razão segui o pedido de minha velha mãe de ser enterrada neste cemitério tão distante de nossa casa. O único elo entre este local e minha mãe é justamente o seu velho amigo, tão debilitado homem. “Nenhuma maldição haverá de se abater sobre mim caso eu contrarie este último capricho de minha mãe”, pensava eu à época. Mas não a contrariei... Talvez algum fluxo oculto, alguma inteligência que antecede os primeiros passos humanos neste planeta, possa guiar as decisões feitas em nossa vida, das mais triviais até às mais carregadas de subjetivismo e significado, como o cemitério no qual o corpo morto de alguém próximo e querido irá se tornar recluso para que possa seguir o curso natural de sua putrefação sem chocar e causar o mais terrível asco.

O fim do dia rapidamente se fez presente em sua totalidade. As trevas se aproximavam para engolir cada pedaço de chão, cada alma que arbitrariamente se instalou nesse fim-de-mundo... O horizonte ia se tornando impenetrável à limitada visão humana. Prossegui em passos firmes pelo velho caminho indicado.
Todas as vezes, durante esta caminhada de data tão certa, ponho-me a observar as poucas moradias da região próxima ao cemitério, que estão presentes ao longo do caminho e se concentram em um pátio amplo, localizado pouco antes de onde estão as sepulturas. Desta vez, apesar de ser a primeira vez em que fiz este caminho em horário tão avançado, e enquanto a escuridão não se fazia total, não fugi ao hábito. . Como já vinha constatando, as condições se tornaram progressivamente mais precárias por aqui. As madeiras cada vez mais podres, repletas de fungos, plantas ressecando e morrendo num ritmo anormal e grotesco. Árvores sem folhas, outras com seus frutos à apodrecer repletos de vermes ao chão e uma nuvem de moscas a voar ruidosamente sobre sua copa. Animais magros e com comportamentos próximos à histeria; homens cada vez mais taciturnos... De mórbida aparência, estes moradores vão adquirindo contornos cadavéricos. Os ossos espetam a pele cinzenta. O fedor exalado de seus corpos vivos (não sei em que medida) é repugnante. Tentei encará-los nos olhos, mas a repulsa criada em minha mente tornou esta ação extremamente deletéria...

[...]

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SEM TÍTULO IX


Quão enigmático deleite!
Da fealdade, miséria e torpeza
Estimula os nervos, malditos
A ressoar seus fluxos perversos!

Miasmático conglomerado orgânico
Sem propósito de criação.
As fibras destruídas, infames,
Tu és o abjeto animal
De alma tão sensível
Quanto a medula que te oprime,
Na supressão de tuas hemácias!

Chora o luto deicida,
Parricídio de quem não veio.
À espreita, o vulto negro ri,
Livre D'ele, o algoz que te fere...
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BRUMAS


Em incertezas abatemos quimeras relutantes,
Vaga o som da escuridão, em ondas imperceptíveis
Escumas recobrem aquilo que era tão certo e próximo...

Cancros entranhados lembram-nos a todo momento
Do Fim material sem propósito, amargamente concebido,
Inerências assombrosas...

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ESFORÇO


Reviro a terra em busca do hediondo prêmio,
Uma sepultura violada em busca de satisfação.
Náusea insuportável, a criança morta,
Execrável fedor pestilento... a poesia morre aqui.

As horas passam e testemunham este abuso.
Meu suor escorre... o esforço doido de um coveiro às avessas.
Vermes compartilham meu apetite, devoram a carne que eu procuro.
Infestam as cavidades em adiantada podridão,
Dividem comigo o prazer encontrado na frieza destes intestinos intumescidos...
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POETA EM PUTREFAÇÃO


"A poesia é decerto uma loucura:
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro... Que doudos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes — bravo! à inspiração divina...
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora
Por que há de o vivo, que despreza rimas,
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?"
(Álvares de Azevedo 1831-1852)

E jazia o corpo, encostado sob a sombra de uma árvore velha. Ao lado uma garrafa esvaziada de cachaça. Apesar de desfigurado pela decomposição que se manifestava em seu curso naturalmente estabelecido, pude reconhecer o cadáver como sendo de um poeta muito conhecido que perambulava pelas ruas da cidade. Os trapos vomitados que lhe vestia, a barba desgraçada. Da boca desdentada vários versos saíram... Poesia apreciada pelos ouvidos entorpecidos pelas imagens mais estúpidas que eram criadas através das rimas e do ritmo da fala do poeta. Flores, sol, amores perdidos, toda sorte de frescuras e inutilidades. Palmas ao poeta!

Agora veja o que resta. O cadáver sendo consumido pelos vermes que numa onda violenta se manifestam em seu ventre inchado. A coloração infame, o livor das extremidades, os humores mefíticos expelidos. Sânie que escorre das chagas abertas. Os insetos devoradores, a nuvem de moscas, o miasma pestilento que emana o pedaço de carniça que outrora se preocupava com rimas, beleza, poesia e insânias.

Foi um estúpido apreciado por uma legião de "sensíveis". A única poesia que vejo é o corpo morto misturando-se à poeira. Eu que desprezo as rimas, vou embora enquanto o poeta, com as secreções morbígenas que secreta, escreve sua última poesia no mato que o cercou em seu leito de morte.

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DESEJO RECRUDESCIDO

"Mais um corpo chega até mim. As maneiras pela qual os obtenho não convém que sejam reveladas..." (Anônimo.)

Sob a carne podre do cadáver, o desejo recrudescido, de tamanha injúria, dominou o pensamento daquele que possui. Definhar sem fim, perversões e vilipêndio. Violação do corpo frio, penetrações com utensílios dos mais grotescos...

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IRREFREÁVEL MOLÉSTIA


"Ainda que se busque algum elemento de humanidade... o corpo é um objeto nas mãos daquele que o possui..." (Anônimo)

Da irrefreável moléstia, apenas em relatos o fedor pestilento se faz presente em certas mentes degeneradas. Vermes em bulhas infames, morrerão em breve, famintos. Pois a carne toda sumirá na clausura do caixão.

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INSALUBRIDADE


Senti-me terrivelmente angustiado na clausura deste tormento. O ambiente cáustico destruia meus nervos através de constantes estímulos deletérios...
Sons repetitivos miseravelmente se reproduziam em intervalos irregulares. Um fedor nauseabundo eu era obrigado a inalar. O ranger de mecanismos me davam a certeza de que havia sido condenado por algum crime hediondo, tamanho era meu sofrimento.
Vi outras pessoas. Pareciam sofrer a mesma desgraça que eu... Amontoavam-se. O ambiente metálico se assemelhava a uma enorme câmera de tortura. Vômitos exalavam seu odor característico. As paredes estavam cobertas por camadas incontáveis de dejetos. E a câmera de tormentos se movia! Desgraçado... não encontrei outra denominação a mim por experimentar tamanho processo malígno.

Ainda não podia descer do ônibus, afinal minha parada estava longe...
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APETITE


Pude em tua carcaça recolher tão abjeta premiação,
Após sujar-me com tuas entranhas frias,
Cobertas por fétido muco,
Desbravando os domínios dos vermes...

Sob a carne podre, tais reflexos de insânia
Manifestam-se convulsivamente.
Eterno definhar, o sofrimento anulado:
Náusea, perversa necrofilia...

Apetite pelo lixo, coprófago miserável
Deleitando-me com teus restos (em merda)
Fluxos contínuos, ingerindo-te...

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

SOBRE O MÁRMORE



Respousas pacata sobre o mármore gélido
Atestando a simplicidade de formas outrora vívidas.
Carregas consigo um semblante tão singular
Da vulgaridade imperceptível que jaz fria.

Ornamento simplório para a sepultura,
Lasciva meretriz acamada pela peste.
Definhando em seus suores mefíticos
Banhada,
Enrijece o corpo em cãibras.

Exumada... Sobre o mármore,
Intestinos para fora do corpo repulsivo.
Nuvem de moscas que paira sobre a fronte do infestado cadáver macilento.

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A NÉVOA


A névoa recobre o ambiente crepuscular. Densa emanação que paira sobre o chão... É a primeira coisa que constato ao abrir as vistas. Com os olhos irritados, levanto sonolento. Meus pulmões doem como se pela primeira vez recebessem o ar. Com a vista limitada pelo nevoeiro procuro me localizar. O ambiente é bucólico. Não faz o mínimo sentido que eu esteja aqui. Em minhas memórias, ainda que não possa afirmar com exatidão meu último paradeiro, não há qualquer referência ao campo. Caminho sobre as folhas que apodrecem devagar liberando seus vapores pútridos.Por alguma razão meus movimentos estão lentos e minha respiração pesada. As dores pulmonares persistem e aumentam...

A caminhada prossegue. Ainda que com dificuldade posso ver formas humanas mais adiante. Vultos curvados e de movimentos moribundos; formas grotescas numa dança assustadora. Lentos assim como estou,numa caminhada algo que coreografada tamanha homogeneidade do movimentar. Tento apressar meus passos para alcançá-los;em vão. As sombras se afastam e somem. Sobre minha cabeça uma ave agourenta passa e emite seus malditos cânticos.

Recaio sob a copa de uma árvore ancestral, rugosa e fétida. Procuro mais ar, ainda que as dores me sufoquem. O dia vai recebendo os primeiros raios. O ar falta-me... assim como minha consciência...
...

Não sei por quanto tempo dormi. Presumo não ter sido por tanto tempo, haja vista que ainda não está totalmente claro. Levanto com um pouco de dificuldade e prossigo, agora com melhores vistas. Novamente encontro as sombras de outrora. Os mesmos diabos curvados... Estão todos reunidos e parados. Uma espécie de reunião. Evito maiores aproximações porém, sou atraído por uma força descomunal que me obriga a fazer parte do grupo de vultos. Enquanto sou impelido à proximação passo a observar o ambiente circundante. Trata-se de um lugar morto. Mórbido. Passo sob um arco com alguma inscrição...


As árvores tortas e sem folhas. O vento cortante e gélido que movimenta a colcha de podre folhagem que recobre o chão. Algumas cruzes antigas estão fincadas na terra. Umas caídas, danificadas talvez pelo tempo, não sei. Covas abertas, mas como se a partir de dentro, reviradas. Já sei onde estou, acredito que saibas também. Aves negras pousam sobre os galhos acinzentados e encaram-me. Parecem entoar uma sinfonia de maldição. Minhas entranhas se contorcem miseravelmente. Os demais presentes nada demonstram. Surpreendo-me com o aspecto das sombras agora materializadas: são literalmente cadáveres "vivos". Perdoem a incoerência da minha denominação mas não encontro outra mais adequada. Suas roupas (os que possuem algo) são apenas trapos sujos. Alguns são cobertos apenas por uma camada de pele esverdeada e rompida, outros expõem apenas a musculatura putrefata. Macilentos defuntos - ainda que haja um velho gordo ainda mais repulsivo.

De súbito eles passam a se decompor rapidamente. Consumidos em instantes! Um por um vão caindo em pedaços podres ao chão. É um momento aterrador. Como se minha carne se soltasse da ossada e ao chão fosse se depositar como alimento aos bichos, sinto como minha própria "decomposição". Dores inauditas me fazem lembrar de certas coisas. Pensamentos confusos, talvez alucinações resultantes do sofrimento cruciante. Lembranças de minha própria morte, algo tão improvável assim. Caio em contorções horríveis.

Ao longe uma mulher e um gato preto observam o espetáculo que se processa.


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O PASTOR

A menina se revira na cama velha onde estão ensopados dum suor velho os lençóis. O quarto mal iluminado está infestado com esta emanação infecta. A sua velha avó profere alguma prece que não entendo. O dialeto é estranho a mim; já a mãe, mulher de meia-idade, está ajoelhada numa posição penitente. Outras mulheres em uníssono cantarolam uma cantiga acestral. E a menina... A menina se contorce com mais violência; abruptamente.

É dramático ver os espasmos deste corpo macilento. Nua, lascivamente abre suas pernas finas de menina em minha direção. Percebo um riso no canto de sua boca. Uma voz gutural... Ela rosna. Todos, atônitos, estão paralisados pelo temor. A voz é ameaçadora, ainda que eu não entenda o que acabou de ser dito. Prantos inauditos...

O calor aumenta e o fedor se torna mais acre. No meu relógio já se marca o fim da tarde. O crepúsculo se revela lá fora; o quarto cada vez mais lúgrube e mórbido se torna. É insuportável, sufocante e mortífero continuar assistindo tão grotesca cena. À porta alguém bate apressadamente. Um anônimo corre para abri-la. Este volta correndo e gritando alto:

-É o pastor! É o pastor!

O recém chegado pastor adentra o quarto nauseabundo e não se impressiona com a devassidão da posição da jovem. Não se incomoda com o fedor. Não me percebe ali. Ele parece já ter um vasto conhecimento acerca destas manifestações obscuras duma mente perturbada. Diz numa voz seca e ríspida:

-É um espírito malígno que se apossou desta criança.

Todos silenciam diante da sentença. O meu interesse começou a aumentar.


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TRIVIALIDADE E UMA CADELA

Passava eu e mais um amigo por uma rua imunda quando vi uma cadela e alguns filhotes que de suas tetas extraiam leite. Num ritmo frenético sugavam aqueles mamilos feridos da progenitora também esfomeada. Tomado de súbito por uma malevolência atroz, um chute desfiro contra a ninhada faminta. Os cinco pequenos cachorros voam literalmente para longe. Já podes imaginar os ruídos agudos dos pequenos cães. A cadela muito magra não tinha muitas forças mas bravamente levantou e se colocou numa postura agressiva a rosnar. Admirei sua valentia e ri comigo mesmo. Chutei-a. Do chão apanho um pedregulho que lanço contra a cachorra quase morta. O esfacelamento não exige maiores detalhes.Sinti-me muito bem depois desse assassínio. Continuei meu caminho rumo à minha casa.
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sábado, 10 de outubro de 2009

Manduca

De alguma forma tenho acesso ao contato diário com anciões. Posso observar todo o processo de lenta degradação da vitalidade humana. Já imaginas que sou funcionário de um asilo... Não estou aqui para lhe dar certezas.
Todos os dias estou pronto a satisfazer necessidades que os corpos fracos já não podem realizar por si só. Há algo de benevolente em minhas ações, sem sombra de dúvida; mas ganho para isso. Enfim, há um entrelace de interesses que se comunicam reciprocamente de uma forma que não me sinto capaz de elucidar.

Manhã ensolarada de sábado. Há tempos os velhos não podiam desfrutar de um passeio pela área verde do abrigo. É um tempo de chuvas frequentes, afinal. No já referido passeio, eles podem exercitar a musculatura carcomida, conversam entre si num saudável processo de sociabilização. Percebe-se sorrisos em suas faces que outrora, e na maior parte do tempo, expressam algo de lúgrube e mórbido. Os que ainda usufruem de alguma consideração por parte de suas crias recebem visitas - algumas deveras forçadas por algum intento execrável - e, se assim for o caso, saem para passeios mais demorados. O que me impressiona de forma intensa é pensar na expectativa da volta ao ambiente familiar, ao convívio com as gerações mais avançadas de sua linhagem. Lógico que tal esperança por parte dos velhos é logo obliterada assim que estão de volta ao asilo. De qualquer forma, tais manhãs - ou dias inteiros - são positivas aos residentes deste modesto abrigo.

Sou encarregado da limpeza dos cômodos e aproveito o momento em que os idosos estão fora. Lembro-me que um dos quartos precisa de reparos num móvel antigo. Levo para lá minhas ferramentas. Sigo pensando em minha velhice...

É o quarto 25. Vejo numa ficha de controle que o residente se chama Álvaro; Álvaro Gonçalves. Atende pela alcunha de Manduca. A porta está fechada. Bato e não recebo resposta. Utilizo uma chave-mestra e me surpreendo com uma cena hedionda. O velho manduca, sem roupas, se contorce em espasmos convulsos sobre a cama repleta de excrementos liquefeitos. O fedor que me atinge ao abrir a porta faz com que minhas vísceras se movimentem violentamente. Após recuperar-me da ânsia súbita chego ao pé da cama do animal que sobre ela continua com uma coreografia demoníaca. Numa dança grotesca seus membros se contorcem de forma inexplicável. Grunhidos guturais ele libera enquanto os movimentos realiza.

Minha própria percepção está alterada. Alguma emanação entorpeceu meus sentidos. O quarto parece se recolher em si próprio numa curvatura claustrofóbica, como se fosse um predador a lentamente abocanhar uma presa mais desavisada. Minha voz torna-se um mero sopro enquanto um suor gélido escorre de minha testa. A impressão que tenho é a de que estou dividindo com esse velho alguma espécie de transe espiritual... Inexplicável tortura que não aplica sobre mim dores, mas sim tormentos psíquicos severos.

Em busca de livrar-me dessa possessão, procuro golpear o velho que padece sobre a cama. Tenho a impressão de que é dele que todo esse processo nefasto provêm. Vou cambaleante até a caixa de ferramentas que trouxe para o conserto do móvel antigo. Um martelo será suficiente para matar o velho. Volto em direção à cama e, sobre ela, um Gato se põe a me observar. Os dois olhos daquele Gato preto estão a me encarar atentamente. Aturdido com a visão do felino medonho, sem pensar lanço um golpe sobre ele. Acerto a parte frontal da cabeça do animal que a plenos pulmões libera um som indescritível. Ele convulsiona ao chão liberando uma escuma branca na forma de vômito. Do olho esquerdo, um pouco afundado para o interior da cabeça, na deformação craniana, vaza uma substância repugnante. O velho cai violentamente sobre a cama imunda. Imóvel.

Observo, agora que os movimentos cessaram, o aspecto do corpo do homem. Está com uma magreza de cadáver. As pontas dos ossos formam ondulações salientes sob a pele enrugada. Meus sentidos ainda entorpecidos, de forma canhestra, percebem toda a fealdade do velho. A face macilenta, cor de chumbo, possui covas profundas. Cor de chumbo... Os lábios estão todos consumidos por feridas vivas e brilhantes. Os olhos de Manduca parecem pular de suas órbitas. Encaram o teto com espanto. Totalmente calvo.

De súbito ele levanta o peito, infla as costelas, como que buscando ar. Repete o movimento. Para minha surpresa outras contorções esse desgraçado corpo produz, contorções essas ainda mais bizarras. Todas as deturpações sensoriais que me abatem se elevam a níveis paralisantes. Seria isto a morte? Sufocante. Com uma fúria virulenta, o martelo, já sujo com pêlos e sangue do Gato preto, atinge a face de Manduca. Ele não grita, parece não sentir dor alguma e, o que é pior, ainda se contorce! A testa já afundara com este golpe certeiro. Lanço outros, repetindo instintivamente as marteladas precisas até que aquela face seca está totalmente deformada. Olhos saltados de suas órbitas. Massa encefálica e sangue se misturam ao suor do corpo, às fezes que já encrostavam sobre o lençol infecto. Maxilar partido em várias faces. Desumanizado em suas formas exteriores...

Os movimentos extremos agora se resumem à tremores nos dedos das mãos de Manduca. Ainda me sinto dominado por alguma força degenerativa que se esvai devagar, ao passo que vou perdendo minha consciência gradualmente. Um sono abate meu corpo.

Por um tempo impreciso, dormi...
Acordo cercado pelos idosos que cuido diariamente. Exibem uma expressão que mescla preocupação e alívio. Trazem-me um desejum generoso. Ao levantar, procurando uma posição adequada à minha alimentação, observo, à beira da porta, a espreitar silenciosamente, aquele mesmo Gato preto de outrora. Uma vertigem faz com que eu derrube o suco que uma senhora trouxera até mim. Mais ao fundo, encurvado pela velhice, e com o mesmo olhar mortífero do gato, está o velho Sr. Álvaro Gonçalves: Manduca.


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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Numa Noite Dentre Várias.

Covas violadas na negrura das horas que avançam
Exalam os fedores de mortes prematuras.
Crianças de volta à superfície, ainda que decaídas,
Molestadas em sua inocência.

Prossigo pelas veredas da loucura,
Encaro as sepulturas e escolho a amante desta noite.
Cova revirada e a caixa funerária se revela como um prêmio,
Um prêmio que em seu interior gere a putrefação do corpo imaculado.
Com caixão aberto e o infante em seus trajes mortuários,
Encaro a visão singular do pequeno defunto feminino.
Perversidades correm livres através de minha mente;
Incontroláveis pulsões excitam meu espírito doente,
Levam-me ao desejo pelo ato necrófilo.
Com a pequena carniça já para fora e despida
Minunciosas carícias sobre a cérea pele.
Os recantos mais erógenos jamais dantes estimulados,
Manipulados lentamente num ritmo torpe.

Ereção pérfida diante da genitália infantil, sem pêlos a pequena boceta é atrativa.
O intróito é invadido e o hímen rompido numa penetração cuidadosa.
Divido junto as moscas o toque à carne morta,
O aconchego da vagina que ainda se formava
Outrora sadia, agora receptáculo preenchido por vermes.
Encaro o pequeno rosto inerte.
Inexpressivo diante do estupro, o cadáver recebe vida de uma forma grotesca.
O perfume mefítico da menina morta e as secreções cadavéricas
Misturam-se ao suor que brota do meu corpo degenerado.

Virada de costas é sodomizada vorazmente.
O reto ainda guarda resíduos digestórios que envolvem-me,
Secreções e fezes fundidos num composto fétido.
Experimento um orgasmo doente e pungente:
Ejaculo no interior dos intestinos inchados.
Prazeres malditos atravéz do coito proibido
Eis o que me torno: um necropedófilo.


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sexta-feira, 10 de julho de 2009

O ULTRA-ROMÂNTICO

E o rapaz contava, soluçando em prantos, todo o seu “amor”. Falava de todas as virgens anêmicas e suas pálidas frontes banhadas por um suor convulso em meio às noites de carícias infantis. E eu ria do pobre amante. Bebia meu vinho e ria de tamanha insolência. A taverna estava cheia. Vários bêbados circulavam pelo espaço. Poetas anônimos recitavam seus versos para as belas prostitutas da casa. Pego uma delas em meus braços. Ao jovem digo:

-Rapaz! Abandona aos vermes estes teus sonhos pueris! Que estes famintos devoradores consumam toda esta tua insânia! Relega à putrefação todas estas tuas ilusões ultra-românticas! Estas jovens pálidas que outrora lamentastes a perda jamais existiram, creio eu. Entrega-te à formosura das morenas que ali transpiram lascívia, verme. Aqueles volumosos seios são reais. As genitálias daquelas meretrizes estão longe da frieza destes cadáveres com os quais tu sonhas. Livra-te dos fedores daquelas carcaças inertes! Viva ao menos um dia fora desta tua ilusão literária!

Mas o diabo em minha frente não me dava ouvidos. Enterrava cada vez mais a face entre suas duas mãos e lamuriava...

-Diabo! Que morras sufocado neste pranto teu ilegítimo! Que os corvos carniceiros se saciem de tua carne podre, infeliz! Levem o cérebro onde fermentas loucuras e devaneios cegos!

Eis que ele ergue os olhos vermelhos como brasa incandescente:

-Do que falas, incrédulo? Este teu materialismo não te permites entender minha situação. Não passas de um desesperado que busca o calor do colo prostituído. Os beijos que todos já provaram, o gozo que todos já gozaram. Tu és um cadáver que respira! De teu corpo emanas apenas este ateísmo mefítico!

-Diabo insolente! Alimentando tuas loucuras o que ganhas? A idolatria que tens para com os cadáveres anêmicos de tez amarelenta é repulsiva!

Por fim, o jovem levanta da mesa e sai da taverna. Deve ter ido ler mais algumas páginas dos romances ultra-românticos donde surgem os fantasmas que o atormentam... Volto à minha meretriz. Uma ode à secura do meu materialismo merece ser entoada.


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sexta-feira, 3 de julho de 2009

SAUDADE

Este corpo outrora belo,
Atraente e jovem
Agora roto cadáver é.
Nem sombra do que dantes fostes
Exalas agora este odor...

Tez fétida e gélida,
Emanas o perfume de tua carniça.
Decompõe-se como qualquer outro bicho
Revela assim tua verdadeira natureza.

Observo-te a feder
Na totalidade deste processo.
Os lábios, os vermes te roubam
Revelas este sorriso seco.

Ri de tua desgraça,
Ri de tua podridão.
Confinada estás nesta cova
Nada me resta além da saudade...

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SEPULTA-ME

Enterra-me nesta cova
Para que me livres da vergonha
De ser visto ao me decompor.

Ao desintegrar-me nestes nefandos trapos,
Exalar o pungente fedor dos inertes,
Perder o que de humano me resta
E juntar-me aos cães em suas condições mais abjetas.

Mefíticos humores a excretar por estes poros,
Em convulsão ser tomado por vermes.
Pestilentos vapores liberados do meu cadáver.

Que tudo isto se torne oculto nas profundezas!

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EIS QUE TE QUESTIONO

Infame nobre francês, o que procuras com hábitos tão hediondos?
Fórmulas e evocações demoníacas tu proferes,
Rituais profanos tu celebras em êxtase inaudito
O que estás, maldito, então a procurar?

E estas carniças em vossa morada?
O que fazes ao cair da noite em segredo?
Restos infantes apodrecem em cada canto
O que determina tão miserável jornada?

Eis que vejo tuas pérfidas ações,
Sob a tutela destas paredes encontras o que procuras.
Os pequenos a ti levados para que morram;
Para que morram de acordo com vossa vontade.

Ao reduzir ao pó tantas crianças,
Tê-las em teus braços ainda quentes,
Para que quando gélidas, pudesse beijá-las à boca.
O que procuras?

À infame sodomia direcionas tuas forças,
Sem hesitar molesta os corpos pequenos que se debatem.
Ao choro tu ofereces a mutilação,
Aos berros o silêncio sepulcral.

Estrangulado e molestados,
Os diminutos cadáveres apodrecem.
Suas carnes queimadas liberam um fedor medonho
Um fedor que aprecias em gozo, nobre francês.

Eis que em tuas abominações te deixo.
Que continues a se satisfazer nestes banquetes nefastos,
Que encontre o tão esperado gozo nestes corpos.
Corpos que fedem...

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EIS COMO ELE DESCREVE...

As sensações que obtém através do abuso dos pequenos corpos:

"Não imaginas o desejo que percorre este corpo nefando que possuo... Sentir o aroma da pele infante... Os sons que balbuciam...
São fáceis de se seduzir. Apesar de não compreenderem a totalidade da situação à qual estão submetidas, elas percebem algo diferente e, a partir daí, passam a esboçar alguma resistência. Não posso negar que isto torna todo o processo muito mais apreciável...
Uma vez dominadas, tudo se torna mais simples. Estrangulo-as até que morram sufocadas escumando pelo canto dos lábios... Tremem tal qual um animal num abate. Precisas presenciar tal acontecimento..."

Então ele continua a descrever os abusos, os toques maliciosos, os fluidos dos corpos, o cheiro dos cadáveres, tudo em detalhes muito bem refinados e vívidos. Enquanto gravo suas palavras não posso deixar de me surpreender com o quanto isto tudo se torna interessante para mim. Parece que estou a ouvir minha própria voz.

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O ONANISTA

Eis que senta e se contorce em espasmos leves,
Sobre restos mortais explora seu prazer solitário.
Reações se processam em seu cérebro demente
Permitem-lhe apreciar os aromas das cavidades podres.

O prazer abjeto do onanista...
Alhures, pode ser repetido
Mas sobre as carniças tem ele o direito?

Despejando "vida" sobre carne putrefacta
E seus vapores mefíticos a inalar,
O calor emanado do corpo nefando sobre a fealdade
Converte-se em secreções pestilentas...

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O CASAL NUM DIA DE AMORES

Eis que vejo aquela criança magra. Um corpo maltratado, sujo. Acoada no canto duma sala usando apenas aquele vestido que outrora já deve ter sido branco. Sentada e com as pernas recolhidas, passa os braços em frente aos joelhos como se os apertasse num abraço. Há dias não deve higienizar-se. Sinto o odor emanado de seus cabelos desgrenhados. E ali ela continuar sem se mover...

Noutro cômodo desta modesta casa, um homem já de meia idade, com uma barriga avantajada, está sentado num sofá esfarrapado assistindo a alguma atrocidade na TV. Suas gargalhadas secas ecoam... Um gole na cerveja barata e um trago do cigarro comprado na venda da esquina. Os cabelos sujos espalham as marcas de caspa a cada vez que suas mãos ali passeiam. Ele fede mais que a criança.

Sua face torna-se séria. Ele levanta, apanha o controle remoto e desliga o aparelho. Vai até a geladeira e apanha mais uma garrafa de cerveja. Grita pelos estreitos corredores que ligam os compartimentos da casa procurando por sua mulher. Ela responde de forma acanhada... Ele procura a fonte dos gemidos bufando. Surpreendo-me ao ver onde está sua mulher. Está acoada no canto duma sala usando apenas aquele vestido que outrora já deve ter sido branco. Afasto-me um pouco do casal.

Ele agarra o braço magro e puxa o corpo moribundo para próximo de sua barriga. Um abraço? Suas mãos percorrem o corpo da menina, ela olha para o chão, virando o rosto. Sua expressão mostra o caráter rotineiro daquelas carícias. Parece estar morta, ou pelo menos, é isso que ali ela deseja. Aperta-lhe os pequenos seios, o amante. Ela geme... O homem pensa que por estar proporcionando a ela prazeres inauditos. Ele, já excitado, retira por completo o vestido que recobria as vergonhas da menina. Aprecia o corpo maltrapilho. Sorri maliciosamente.Toca as genitálias da púrbere e sente o cheiro em suas mãos gordas. A julgar pelo aspecto da jovem, pode-se imaginar que tipo de odores ele está a apreciar em êxtase...

O olhar vago da jovem se mantêm inalterado... Agora, já dominada e numa posição na qual nada pode fazer, é penetrada por aquele homem que agarra o corpo magro com força, realizando movimentos bruscos enquanto bufa agoniado. O rosto sereno em contraste com as caretas do homem que transpira em demasia. É o tempo necessário para que ejacule em suas entranhas. Ele, após o coito covarde, observa a paralisia da criança e chuta-lhe à altura das costelas. Estalos...
Desmaiada, ele a arrasta para um outro local. Arrasta lentamente...

Adianto-me aos dois e vejo o interior do cômodo ao qual se dirigem. Um quarto escuro. Apenas uma lâmpada capenga no teto. Uma mesa. Algumas prateleiras... moscas... um fedor execrável, tal qual o de uma tumba violada. Facas cegas e outros toscos utensílios. Cedo espaço para o casal. Ele levanta o corpo desfalecido e o põe sobre a mesa. Beija-lhe os lábios feridos. Vem em minha direção. Recuo em passos para trás. Ele fecha a porta. Viro-me e vou embora dali. Por hoje, já vi o bastante.

Volto noutro tempo para observar o cômodo de outrora. O mesmo cômodo pestilento. A mesa está banhada por um sangue novo que se coagula aos poucos. O torso eviscerado descansa sobre o muco fétido que ali se depositou. A menina está sem a língua e sem os olhos. Alguns dentes faltam-lhe... Os instrumentos todos sujos denunciam seu uso recente. Sacolas plásticas depositadas perto de mim, ao canto. Algumas marcas de sangue... as tripas devem estar ali condicionadas. O que diabos ele fez aqui?

Moscas sobrevoam a carcaça vazia, em alvoroço. Os primeiros vermes passam a consumir os músculos secos. Não toco em nada por ali para não denunciar minha presença. O fedor é pungente...É todo o processo que se repete todas as vezes, nada de novidade em ver um corpo em decomposição. Penso que tal relato se faz inútil devido a este caráter cotidiano. Ouço os passos do homem que adentra o cômodo. Agarra as sacolas, junta-as perto da porta. Uma faca maior é usada para diminuir o corpo ao amputar seus braços... rente às articulações...alguma perícia é revelada.

Splattered Cavity